Teremos eleições em outubro, com uma importância enorme para o Brasil e pelos brasileiros. Por isso resolvi me debruçar e estudar de forma mais profunda sobre a questão da defesa da Democracia e a responsabilidade do eleitor ao comparecer as urnas.
As eleições presidenciais de 2026 serão um dos momentos mais importantes da vida política brasileira nos últimos anos. No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros irão às urnas para escolher, além do presidente e do vice-presidente da República, governadores, senadores e deputados. Se houver segundo turno para presidente ou governador, a votação ocorrerá em 25 de outubro.
Mais do que escolher nomes, entretanto, uma eleição presidencial representa a possibilidade de escolher caminhos. O eleitor não deposita na urna apenas um número. Deposita uma parcela de sua confiança, de sua esperança e de sua responsabilidade sobre os rumos do país.
Por isso, as eleições de 2026 exigem reflexão.
O Brasil é uma democracia constitucional. Isso significa que o poder político não pertence a uma pessoa, a um partido ou a um grupo econômico. O poder emana do povo e é exercido dentro das regras estabelecidas pela Constituição. Executivo, Legislativo e Judiciário possuem funções próprias e devem atuar dentro dos limites institucionais estabelecidos pelo Estado Democrático de Direito.
Nesse contexto, defender a democracia não significa defender cegamente qualquer governo, partido ou autoridade. Democracia também significa ter o direito de criticar o presidente, os parlamentares, os ministros do Supremo Tribunal Federal, os partidos políticos e todas as demais instituições públicas.
Mas existe uma diferença fundamental entre criticar uma instituição e tentar destruí-la como instituição.
Uma democracia saudável permite críticas ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso Nacional, ao governo e ao próprio sistema eleitoral. O que não pode ser considerado normal é transformar permanentemente as instituições responsáveis por garantir a Constituição em inimigas da sociedade, especialmente quando essa estratégia busca convencer a população de que somente um líder ou determinado grupo seria capaz de representar a verdadeira vontade popular.
O Supremo Tribunal Federal, gostemos ou não de suas decisões, integra a estrutura constitucional brasileira e exerce a função de Corte constitucional. Questionar decisões judiciais faz parte da liberdade democrática. A existência de mecanismos institucionais para contestar decisões também faz parte da democracia. O que merece atenção é quando a crítica deixa de ser uma discordância legítima e passa a defender a deslegitimação sistemática das instituições.
Esse debate ganha ainda mais importância em 2026. O próprio presidente do STF, ministro Edson Fachin, afirmou recentemente que ataques ao Judiciário não devem ser utilizados como pauta política, em um momento de intensa disputa eleitoral.
Ao mesmo tempo, o eleitor precisa compreender que democracia não é patrimônio de esquerda, direita, centro ou de qualquer partido. Democracia pertence à sociedade brasileira.
Por isso, também não devemos aceitar que governos sejam considerados democráticos simplesmente porque foram eleitos. A eleição é indispensável à democracia, mas não é suficiente para defini-la. Uma democracia verdadeira também depende do respeito às leis, às instituições, à liberdade de expressão, à imprensa, ao pluralismo político, aos direitos individuais e à possibilidade de alternância de poder.
A história brasileira mostra que o autoritarismo pode começar justamente quando uma sociedade passa a acreditar que determinados direitos ou instituições são obstáculos que precisam ser eliminados em nome de uma suposta solução nacional.
É preciso lembrar que a democracia permite a existência de opiniões divergentes. Permite que alguém seja de esquerda, de direita, liberal, conservador, socialista ou simplesmente independente. Permite que cidadãos tenham diferentes visões sobre economia, segurança pública, educação, saúde, impostos, programas sociais e política externa.
O que a democracia não pode exigir é que todos pensem da mesma maneira.
Uma eleição responsável, portanto, não deveria ser decidida apenas pela emoção, pela raiva, pelo medo ou por mensagens recebidas nas redes sociais. O eleitor precisa perguntar: qual é o projeto apresentado? Quem o representa? Quais são suas propostas? Que relação possui com as instituições? Como pretende governar? Quais são seus compromissos com a Constituição e com os direitos fundamentais?
Também é necessário desconfiar das informações que chegam prontas às telas dos celulares.
As eleições de 2026 acontecem em um ambiente de intensa disputa política e de preocupação com desinformação. O TSE vem reforçando mecanismos de transparência e fiscalização do sistema eletrônico de votação, enquanto especialistas e entidades de checagem alertam para a circulação de narrativas falsas sobre as urnas.
O eleitor precisa exercer sua cidadania com espírito crítico.
Não basta perguntar quem fala aquilo que queremos ouvir. É necessário perguntar se aquilo que estamos ouvindo é verdadeiro.
Não basta compartilhar uma acusação porque ela confirma nossas convicções. É preciso verificar a fonte.
Não basta votar contra alguém. É necessário compreender pelo que estamos votando.
Essa talvez seja uma das maiores responsabilidades das eleições de 2026.
O Brasil precisa olhar para o futuro sem esquecer o passado. A democracia brasileira enfrentou períodos de ruptura, autoritarismo e graves violações de direitos humanos. A Constituição de 1988 estabeleceu um novo compromisso nacional com a democracia, com as liberdades públicas e com o Estado de Direito.
Preservar esse patrimônio não significa impedir mudanças.
Ao contrário: a democracia existe justamente para permitir mudanças por meios pacíficos, através do voto e das instituições.
Governos podem mudar. Presidentes podem mudar. Partidos podem perder eleições. Novas lideranças podem surgir. Políticas públicas podem ser modificadas. Instituições podem e devem ser aperfeiçoadas.
O que não deveria mudar é o compromisso fundamental com a democracia.
É possível defender a melhoria da economia sem atacar a democracia. É possível defender mais segurança pública sem defender autoritarismo. É possível combater a corrupção sem destruir instituições. É possível defender valores conservadores sem ameaçar direitos fundamentais. É possível defender políticas sociais sem transformar adversários políticos em inimigos.
O Brasil não precisa escolher entre democracia e desenvolvimento.
Precisa construir desenvolvimento dentro da democracia.
É nesse ponto que o voto de cada cidadão ganha uma dimensão extraordinária.
O voto é individual, mas suas consequências são coletivas.
Uma pessoa pode imaginar que seu voto é apenas um entre milhões. Entretanto, a democracia é exatamente a soma desses milhões de escolhas individuais.
Por isso, votar não deveria ser um ato de vingança.
Não deveria ser simplesmente uma reação contra alguém.
Não deveria ser resultado de uma mensagem recebida em um grupo de WhatsApp.
Não deveria ser determinado exclusivamente pela propaganda eleitoral.
O voto deve ser uma escolha consciente.
Nas eleições de 2026, o eleitor brasileiro terá diante de si diferentes candidaturas, propostas e visões de país. A imprensa já registra uma disputa presidencial bastante diversificada, com candidatos de diferentes correntes políticas e ideológicas.
Essa diversidade, por si só, é uma característica da democracia.
Cabe ao cidadão estudar, comparar propostas, conhecer a trajetória dos candidatos e formar sua própria convicção.
E talvez devêssemos recuperar uma palavra que muitas vezes parece esquecida na política brasileira: responsabilidade.
Responsabilidade para votar.
Responsabilidade para fiscalizar.
Responsabilidade para cobrar.
Responsabilidade para reconhecer erros.
Responsabilidade para aceitar o resultado das urnas dentro das regras democráticas.
Responsabilidade, sobretudo, para compreender que nenhum político está acima da Constituição e nenhum cidadão deveria abrir mão de sua liberdade em troca da promessa de um salvador da pátria.
A democracia não é perfeita. Nenhuma instituição humana é.
O Supremo Tribunal Federal pode ser criticado. O Congresso pode ser criticado. O governo pode ser criticado. A imprensa pode ser criticada. O sistema eleitoral pode ser debatido e aperfeiçoado.
Mas instituições democráticas devem ser fortalecidas pelo debate, pela transparência e pelo cumprimento das regras — não pela violência, pela intimidação ou pela tentativa de substituí-las pela vontade pessoal de quem ocupa o poder.
O eleitor de 2026 tem, portanto, uma responsabilidade histórica.
Não se trata apenas de escolher quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Trata-se também de decidir que tipo de relação queremos estabelecer entre governo, sociedade e instituições.
Queremos um país onde as divergências possam ser resolvidas pelo voto?
Queremos um país onde a oposição tenha liberdade para existir?
Queremos instituições capazes de controlar os abusos de qualquer governo?
Queremos imprensa livre, liberdade de expressão e respeito aos direitos fundamentais?
Queremos que aqueles que vencem eleições governem, mas também aceitem os limites impostos pela Constituição?
Essas perguntas não pertencem a um partido.
Pertencem à cidadania.
Por isso, quando chegar diante da urna eletrônica, cada eleitor deveria lembrar que está exercendo um dos mais importantes direitos de uma sociedade democrática.
O voto não é apenas uma escolha.
É uma responsabilidade.
E democracia não se preserva somente no dia da eleição.
Ela precisa ser defendida todos os dias: no respeito ao próximo, na aceitação das diferenças, na busca pela verdade, na rejeição da violência política e na defesa das instituições que garantem que nenhum governante seja maior do que a Constituição.
Em 2026, o Brasil novamente terá a oportunidade de escolher seu caminho pelas urnas.
Que cada cidadão possa votar livremente, sem medo, sem violência e sem manipulação.
Que possa discordar sem odiar.
Que possa defender suas ideias sem desejar o silêncio das ideias contrárias.
E que compreenda que, independentemente de quem vença a eleição, a democracia brasileira precisa continuar sendo maior do que qualquer candidato.
Porque presidentes passam.
Partidos passam.
Governos passam.
A democracia, quando verdadeiramente respeitada, permanece.
Antonio Fidelis dos Santos é Consultor – Empresário – Defensor da Democracia e da Justiça Social. Um apaixonado por Lins. E-mail: antoniofidelis.consultoria@gmail.com
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